Biotecnologia 4.0: como dados, automação e IA estão aproximando laboratório e produção

Biotecnologia 4.0: como dados, automação e IA estão aproximando laboratório e produção
Alexandre Melo, mestre em Engenharia Química e de Processos pelo Karlsruhe Institute of Technology (KIT), na Alemanha, e diretor da Saubertag Engineering GmbH.

23.09.2026

Um processo biotecnológico desenvolvido em bancada raramente está pronto para ser transferido diretamente à escala industrial. Ao mudar de escala, multiplicam-se variáveis, dados e incertezas, em ciclos de desenvolvimento longos e com demanda crescente por processos mais flexíveis, capazes de atender diferentes escalas e perfis de produção. O desafio não é simplesmente aumentar a escala física do processo, mas transformar um resultado obtido em bancada em um processo robusto, previsível e economicamente viável. Atualmente, essa transformação vem sendo impulsionada por tecnologias e abordagens associadas à biotecnologia 4.0, como automação, inteligência artificial e uso intensivo de dados.

A robustez de um bioprocesso depende de condições capazes de sustentar um desempenho consistente mesmo diante de pequenas variações de cepa, meio de cultura, temperatura, pH e perfil de alimentação. Miniaturização e ensaios em paralelo multiplicaram as condições testáveis em menos tempo, mas não bastam, porque é preciso um desenho experimental que separe variações relevantes de ruído e aponte quais parâmetros realmente determinam o resultado.

A automação e a digitalização atuam nessa etapa por meio de métodos de alto rendimento, bioinformática e aprendizado de máquina, que podem acelerar a avaliação de variantes e condições de processo. Com isso, atividades predominantemente manuais e isoladas começam a dar lugar a fluxos mais integrados, automatizados e orientados por dados.

À medida que os laboratórios produzem volumes cada vez maiores de informações, o desafio passa a ser transformar essas informações em conhecimento útil para apoiar decisões técnicas. Esse movimento também se reflete em um mercado em expansão: segundo projeção da Roots Analysis, o mercado global de Digital Biomanufacturing deve passar de US$ 2,8 bilhões em 2026 para US$ 12 bilhões até 2035.

Nesse cenário, os gêmeos digitais ganham espaço ao criar representações digitais de recursos, procedimentos e processos conectadas aos seus equivalentes físicos. Essa relação permite ampliar as possibilidades de análise, desenvolvimento e controle, criando uma ponte entre o que acontece no ambiente físico e as informações utilizadas para aperfeiçoar o processo. Sustentar essa integração, porém, exige uma infraestrutura padronizada.

Embora a conectividade física entre dispositivos já esteja bastante disseminada, a comunicação consistente entre diferentes equipamentos ainda representa um desafio. Iniciativas como SiLA 2 e LADS buscam facilitar a interoperabilidade entre instrumentos que tradicionalmente funcionavam de maneira isolada. Há ainda especificações mais amplas para integração por APIs, como OpenAPI. O desafio, portanto, não é apenas conectar equipamentos, mas permitir que diferentes sistemas troquem e interpretem informações de maneira consistente.

O processamento contínuo e o uso de unidades modulares também podem abrir novas possibilidades, principalmente para produtos fabricados em baixos volumes e de alto valor, realidade presente em parte do portfólio biofarmacêutico. Em vez de uma configuração fixa, módulos podem ser combinados de maneira mais flexível, desde que dados, automação e sistemas de controle estejam integrados.

O mesmo princípio aproxima desenvolvimento e fabricação: dados gerados durante a produção podem ser analisados em conjunto com aqueles obtidos no laboratório, criando um ciclo de aprendizado e otimização que continua mesmo depois que a planta entra em operação. Dessa forma, reduz-se a separação tradicional entre as duas etapas, permitindo que o conhecimento adquirido na produção também retorne ao desenvolvimento do processo.

Por fim, a responsabilidade humana não desaparece diante da automação. Tarefas laboratoriais rotineiras podem migrar para sistemas automatizados, enquanto o profissional assume cada vez mais funções de supervisão, análise de dados e tomada de decisão. Automação, inteligência artificial, miniaturização, sensores, integração de dados e gêmeos digitais não funcionam de maneira isolada: precisam fazer parte de um mesmo ecossistema. E, quanto maior a complexidade das informações disponíveis, mais importante se torna a capacidade humana de transformá-las em decisões tecnicamente fundamentadas.