Datas ambientais de outubro colocam em reflexão o desafio de dar um novo destino aos resíduos eletroeletrônicos

Datas ambientais de outubro colocam em reflexão o desafio de dar um novo destino aos resíduos eletroeletrônicos
Robson Esteves – Presidente da ABREE — Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos.

06.10.2026

A tecnologia transformou a maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos. Celulares, computadores, televisores e eletrodomésticos inteligentes estão cada vez mais presentes em nosso cotidiano e trazem avanços importantes para a sociedade. Ao mesmo tempo, o crescimento do consumo e a rápida evolução tecnológica colocam um desafio que precisa ser enfrentado por toda a cadeia. O que acontece com esses produtos quando deixam de ser utilizados?

O desafio é global. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, da Organização das Nações Unidas, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletroeletrônicos em 2022. Apenas 22,3% desse volume foi formalmente coletado e reciclado. A projeção é de que a geração anual chegue a 82 milhões de toneladas até 2030, caso o ritmo atual seja mantido.

É nesse contexto que o Dia Internacional do Lixo Eletrônico, celebrado em 14 de outubro, e o Dia do Consumo Consciente, em 15 de outubro, ganham relevância. Mais do que datas no calendário, elas ajudam a ampliar uma discussão que precisa fazer parte da nossa rotina.

O consumo consciente também passa pela forma como escolhemos as empresas e lidamos com os produtos depois do uso. Para o consumidor, isso significa buscar informações, considerar o compromisso das marcas com a responsabilidade pós-consumo e, quando chegar o momento do descarte, procurar os canais adequados para a devolução dos equipamentos.

No caso dos eletroeletrônicos, essa etapa merece atenção. Esses produtos possuem componentes que exigem destinação ambientalmente adequada, mas também reúnem materiais que podem ser recuperados e voltar à cadeia produtiva.

É nesse ponto que a logística reversa ganha importância. A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, enquanto o Decreto nº 10.240/2020 regulamenta a logística reversa de eletroeletrônicos de uso doméstico no Brasil.

Mas o sistema vem avançando. Entre 2021 e 2025, foram coletadas e destinadas adequadamente 230.576 toneladas de resíduos eletroeletrônicos, eletrodomésticos e seus componentes por meio da operação da ABREE. Atualmente, são mais de 7 mil pontos de recebimento distribuídos por pelo menos 1,5 mil municípios brasileiros.

Esses números mostram que existe uma estrutura cada vez mais ampla para receber esses produtos. Ainda assim, temos um desafio importante pela frente. Parte das empresas continua fora de sistemas estruturados de logística reversa, mesmo diante das obrigações previstas na legislação. Ampliar a participação das empresas é fundamental para que a responsabilidade pelo pós-consumo alcance toda a cadeia.

Essa discussão também nos leva a outro conceito que deverá ganhar cada vez mais espaço nos próximos anos, que é a mineração urbana. Metais, plásticos e outros componentes contidos nesses produtos podem ser recuperados e reinseridos em processos produtivos.

Para que isso aconteça, porém, é preciso que esses equipamentos cheguem aos canais corretos. Um produto descartado de maneira inadequada representa não apenas um problema ambiental, mas também a perda de materiais que poderiam ser aproveitados novamente.

Por isso, a responsabilidade é compartilhada. As empresas precisam cumprir seu papel e participar dos sistemas de logística reversa, contribuindo para a construção de uma infraestrutura adequada. O poder público, por sua vez, tem papel fundamental na criação de um ambiente regulatório que favoreça esses sistemas. Já o consumidor precisa ter acesso à informação e aos pontos de recebimento adequados para fazer a devolução de forma correta.

Nesse aspecto, a conscientização é parte fundamental dessa mudança. Quanto mais conhecida for a logística reversa e mais simples for o acesso aos pontos de recebimento, maior será a participação da sociedade.

Em suma, o debate sobre o resíduo eletrônico não termina em outubro. As duas datas são uma oportunidade para chamar atenção para um tema que precisa ser tratado durante todo o ano. Afinal, o futuro do consumo também passa pela forma como lidamos com aquilo que já utilizamos. Dar uma destinação adequada aos eletroeletrônicos significa reduzir impactos ambientais, recuperar recursos e fortalecer uma cadeia capaz de transformar resíduos em novas matérias-primas.

Mais do que pensar apenas no produto que chega às nossas mãos, precisamos olhar para todo o seu ciclo de vida, inclusive para o destino que terá quando deixar de ser utilizado.

*Robson Esteves – Presidente da ABREE — Associação Brasileira de Reciclagem de Eletroeletrônicos e Eletrodomésticos.