Máquinas e equipamentos: o Brasil está perdendo mercado ou mudando de lugar na cadeia?

Máquinas e equipamentos: o Brasil está perdendo mercado ou mudando de lugar na cadeia?
Credito: Giselleflissak / Getty Images

18.01.2026

A perda de competitividade do setor brasileiro de máquinas e equipamentos deixou de ser apenas uma percepção do mercado e passou a se refletir nas decisões empresariais. A combinação do chamado Custo Brasil com a ascensão da indústria chinesa está redesenhando, de forma silenciosa, a estrutura produtiva do setor.

O Custo Brasil não é um fator isolado, mas um conjunto de entraves conhecidos: carga tributária elevada e complexa, infraestrutura logística deficiente, burocracia excessiva e custos trabalhistas que pressionam o preço final. Na prática, esses elementos reduzem a capacidade da indústria nacional de competir em preço e escala, tanto no mercado interno quanto no externo.

Do outro lado, a China consolidou vantagens estruturais difíceis de ignorar. Escala produtiva, cadeias de suprimentos altamente integradas, acesso facilitado a componentes e incentivos estatais permitem a entrega de máquinas e equipamentos a custos significativamente menores. Não se trata apenas de preço, mas de velocidade, previsibilidade e capacidade de adaptação.

Diante desse cenário, muitas empresas brasileiras passaram a adotar uma estratégia híbrida: mantêm marca, engenharia, projeto e relacionamento comercial no Brasil, enquanto transferem parte ou a totalidade da fabricação para plantas chinesas. Essa decisão não é ideológica — é econômica. Ela permite competir em preço e preservar participação de mercado, ainda que à custa da redução da produção local.

O ponto crítico é que esse movimento desloca o Brasil na cadeia de valor. Em vez de polo fabril, o país passa a ocupar, cada vez mais, o papel de integrador, desenvolvedor de projeto, distribuidor e gestor de marca. Isso preserva empresas, mas enfraquece a base industrial no longo prazo.

A discussão, portanto, vai além de “perda de mercado”. Trata-se de perda de densidade industrial. Sem enfrentamento estrutural do Custo Brasil, a tendência é que a produção local continue cedendo espaço, enquanto a indústria nacional sobrevive mais pela estratégia comercial do que pela competitividade fabril.

Para o setor de máquinas e equipamentos, o desafio é claro: ou o ambiente produtivo se torna viável, ou o Brasil seguirá relevante como mercado consumidor — e não como centro de produção.

Na P&S, acompanhamos esse movimento como um dos principais sinais de alerta para o futuro da indústria de bens de capital no país.