Reciclagem de papel no Brasil exige escala e prioridade
27.04.2026
Por Anibal Tebet, superintendente administrativo da Trombini
Com a proximidade do Dia da Reciclagem, a reflexão que se impõe vai além da data e convida a olhar para o papel estrutural que a reciclagem desempenha no desenvolvimento do país. Em um setor com relevância global, os números ajudam a dimensionar tanto os avanços quanto os desafios. O Brasil é o sétimo maior produtor de todos os tipos de papel do mundo e o sexto maior produtor de papelão ondulado. Ao mesmo tempo, recicla 58,8% do papel que produz e registra uma taxa de 64,9% na reciclagem de embalagens de papel. Entre os dez maiores fabricantes globais, é o sexto país que mais recicla proporcionalmente. Existe, portanto, uma base sólida, mas que ainda demanda evolução em escala e eficiência.
Reciclar, nesse contexto, não é apenas uma agenda ambiental, mas uma decisão econômica. A indústria de papel opera dentro de uma lógica em que o resíduo retorna como insumo produtivo, reduzindo a pressão sobre recursos naturais e contribuindo para ganhos de eficiência ao longo da cadeia. Quando esse ciclo é bem estruturado, há redução de custos, melhor aproveitamento de materiais e fortalecimento da competitividade. Quando não é, o país perde valor em uma etapa essencial do processo produtivo.
O avanço dessa agenda passa, necessariamente, pela base da cadeia. As cooperativas de catadores têm papel central na coleta e triagem de materiais e são responsáveis por viabilizar grande parte da reciclagem no Brasil. O setor vem investindo mais de R$ 30 milhões em programas estruturantes voltados ao fortalecimento dessas iniciativas em todo o país, combinando impacto ambiental com inclusão produtiva e geração de renda. Ampliar esse movimento é fundamental para sustentar o crescimento dos índices de reciclagem e garantir maior capilaridade ao sistema.
Outro ponto crítico é a transformação da reciclagem em hábito. A eficiência do processo depende tanto de infraestrutura quanto de comportamento. Sem descarte correto e engajamento da sociedade, a cadeia perde qualidade e volume de material reciclável. Por outro lado, quando há educação ambiental e iniciativas que aproximam o tema do cotidiano, cria-se uma cultura mais consistente, capaz de sustentar avanços no longo prazo.
Nesse sentido, experiências práticas mostram como essa lógica pode gerar impacto concreto. Em Farroupilha, iniciativas como a Ecotenda e o EcoTrombini somaram mais de 80 toneladas de resíduos reciclados ao longo de 2025. A Ecotenda, como ponto permanente de descarte, respondeu por 71,6 toneladas de materiais destinados corretamente, enquanto o EcoTrombini arrecadou 9,2 toneladas de papel e papelão junto a escolas municipais. Esse volume foi convertido em mais de R$ 9 mil investidos diretamente em melhorias na rede de ensino, conectando reciclagem, educação e benefício social em um mesmo ciclo.
Tratar a reciclagem como prioridade é reconhecer seu papel na eficiência produtiva, na geração de renda e no posicionamento do Brasil em um cenário global cada vez mais orientado por critérios ambientais. O país já reúne escala industrial e indicadores relevantes, mas precisa avançar na consolidação de uma cadeia mais integrada, estruturada e contínua. Mais do que ampliar números, o desafio está em transformar a reciclagem em um sistema robusto, capaz de sustentar crescimento econômico com uso mais inteligente de recursos.