Agro cresce, mas indústria não acompanha: estudo mostra oportunidade para transformar riqueza agrícola em desenvolvimento local

Agro cresce, mas indústria não acompanha: estudo mostra oportunidade para transformar riqueza agrícola em desenvolvimento local
Mestre e doutora em Planejamento Urbano e Regional Carlla Brito Furlan Pourre

19.06.2026

O agronegócio brasileiro continua ampliando sua importância para a economia nacional, mas uma questão estrutural ainda limita o potencial de desenvolvimento de centenas de municípios produtores: a distância entre a produção agrícola e a industrialização.

Um estudo conduzido pela urbanista e pesquisadora Carlla Brito Furlan Pourre, da Universidade de Brasília (UnB), lança luz sobre um desafio pouco debatido. Embora regiões como o Matopiba — área formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — estejam entre as mais dinâmicas do agronegócio nacional, grande parte da riqueza gerada pelas lavouras continua deixando os municípios de origem antes de se transformar em emprego, renda e desenvolvimento local.

O caso analisado pela pesquisadora foi o município de Baianópolis, no oeste da Bahia. Apesar da forte presença das culturas de soja e milho, apenas cerca de 20% da cadeia produtiva está estruturada localmente, evidenciando a ausência de indústrias de processamento e de serviços especializados associados ao setor.

A riqueza passa, mas não permanece

O estudo demonstra uma realidade comum em diversas regiões agrícolas brasileiras: o município produz, mas não captura integralmente os benefícios econômicos gerados por sua própria atividade produtiva.

A consequência é conhecida. Parte significativa da renda, dos investimentos e dos empregos qualificados migra para centros urbanos maiores, enquanto pequenas cidades enfrentam desafios relacionados à retenção de talentos, geração de oportunidades e expansão da infraestrutura urbana.

Segundo a pesquisa, a implantação de uma única indústria esmagadora de soja, com investimento estimado em R$ 20 milhões, poderia gerar aproximadamente R$ 48 milhões de impacto econômico local, além da criação de cerca de 285 empregos diretos, indiretos e induzidos.

Mais do que números expressivos, os resultados ajudam a ilustrar como a agregação de valor próxima às áreas produtoras pode alterar significativamente a dinâmica econômica de pequenos municípios.

O desafio da interiorização industrial

A análise traz uma reflexão importante para o setor produtivo brasileiro.

Nas últimas décadas, o país consolidou sua posição entre os maiores produtores agrícolas do mundo. Entretanto, em diversas regiões, a expansão da capacidade industrial não acompanhou o mesmo ritmo.

Para especialistas em desenvolvimento regional, esse descompasso reduz o potencial de multiplicação da riqueza gerada pelo agronegócio e limita a formação de ecossistemas econômicos mais robustos fora dos grandes centros urbanos.

A instalação de indústrias de processamento, armazenagem, logística, biocombustíveis, insumos e serviços especializados tende a ampliar a circulação de renda, fortalecer cadeias produtivas e aumentar a arrecadação municipal.

Nossa análise

O estudo reforça uma discussão estratégica para o futuro do agronegócio brasileiro.

O país já demonstrou capacidade de expandir sua produção agrícola em escala global. O próximo passo pode estar na ampliação da industrialização próxima às áreas produtororas, criando cadeias de valor mais completas e distribuindo de forma mais equilibrada os benefícios econômicos gerados pelo campo.

A combinação entre vocação agrícola, planejamento urbano, infraestrutura e atração de investimentos industriais surge como um dos caminhos para fortalecer pequenas cidades e reduzir desigualdades regionais.

Em um cenário cada vez mais competitivo, produzir mais continua sendo importante. Mas transformar essa produção em desenvolvimento local talvez seja o verdadeiro desafio das próximas décadas.

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