Biogás e biometano entram em uma nova fase de expansão no Brasil

Biogás e biometano entram em uma nova fase de expansão no Brasil
Biogás e biometano entram em uma nova fase de expansão no Brasil-Revista P&S

01.10.2026

Financiamento, novas estruturas de investimento e regulamentação começam a criar as condições para ampliar a participação dos combustíveis renováveis na matriz energética brasileira

O mercado brasileiro de biogás e biometano começa a atravessar uma mudança importante de escala. Além do avanço na implantação de novas plantas, o setor passa a contar com um ambiente regulatório mais estruturado e com alternativas de financiamento capazes de aproximar os projetos de uma lógica cada vez mais próxima à de outros ativos de infraestrutura.

Essa transformação esteve no centro do debate realizado em São Paulo, em 28 de setembro, durante o evento “Financiamento de Projetos de Biogás e Biometano”, promovido pelo Machado Meyer em parceria com a Associação Brasileira do Biogás (ABiogás) e a Watt Capital. O encontro reuniu empresas, investidores, instituições financeiras e especialistas para discutir justamente um dos principais desafios para a expansão do setor: como transformar potencial em projetos financiáveis e projetos financiáveis em escala.

Segundo dados apresentados durante o evento, mais de R$ 2,36 bilhões foram destinados ao financiamento de projetos do setor desde 2015, por meio do BNDES e de debêntures incentivadas. Um dado chama atenção: 79% desse volume foi contratado nos últimos três anos, sinalizando uma aceleração recente dos investimentos.

Um mercado que começa a ganhar escala

O Brasil possui uma das maiores disponibilidades de matéria-prima para produção de biogás do mundo, associada principalmente às atividades agroindustriais, ao setor sucroenergético, à produção de alimentos, aos resíduos urbanos e aos aterros sanitários.

Apesar desse potencial, a utilização efetiva ainda é pequena.

De acordo com dados apresentados pela ABiogás, o país conta atualmente com 21 plantas de biometano em operação, com capacidade de aproximadamente 1,3 milhão de m³ por dia. Outras 48 plantas estão em processo de autorização na ANP, com capacidade projetada de 3,3 milhões de m³/dia até 2027.

Além disso, existem outros 127 projetos mapeados, que poderiam elevar a capacidade para cerca de 8 milhões de m³/dia até 2030.

O contraste entre o potencial disponível e a produção atual é um dos principais argumentos para o crescimento do mercado. Segundo a associação, o país utiliza hoje menos de 2% de seu potencial total de produção de biogás.

Na prática, isso significa que existe matéria-prima, existe demanda potencial e existe tecnologia. O desafio passa cada vez mais por viabilizar economicamente os projetos e criar mecanismos para acelerar sua implantação.

A regulamentação começa a mudar o jogo

Um dos fatores que contribuem para essa nova etapa é a evolução do marco regulatório.

A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu a Política Nacional de Incentivo ao Biometano e criou mecanismos relacionados à descarbonização do mercado de gás natural.

Entre as novidades está o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), que permite separar o atributo renovável do biometano de sua molécula física.

Na avaliação apresentada durante o evento, esse mecanismo pode criar uma nova camada de valor para os projetos. O atributo ambiental passa a poder ser comercializado independentemente da movimentação física do gás, abrindo espaço para novas estruturas de receita, negociação e financiamento.

É uma mudança relevante porque amplia a discussão sobre o biometano. O combustível deixa de ser analisado apenas como uma alternativa energética e passa a incorporar também uma dimensão de ativo ambiental e financeiro.

Do financiamento corporativo ao Project Finance

Outro movimento observado no setor é a evolução das estruturas de financiamento.

À medida que as plantas ganham escala, maturidade tecnológica e maior previsibilidade operacional, os projetos começam a migrar de modelos fortemente apoiados em garantias corporativas dos acionistas para estruturas de Project Finance, nas quais os próprios ativos e fluxos de caixa do empreendimento passam a ocupar papel central na operação.

Essa mudança é importante para um setor que precisa multiplicar investimentos sem depender exclusivamente da capacidade financeira dos grupos controladores.

Para os agentes financeiros, entretanto, a qualidade do projeto continua sendo determinante.

Modelagem financeira consistente, previsibilidade de receitas, segurança no fornecimento da matéria-prima, viabilidade operacional e gestão adequada de riscos estão entre os elementos considerados fundamentais para a aprovação das operações.

Em outras palavras: potencial energético, sozinho, não financia uma planta. É preciso transformar potencial em um projeto tecnicamente, regulatoriamente e financeiramente estruturado.

BNDES continua central, mas novas fontes ganham espaço

O BNDES permanece como um dos principais financiadores do segmento. Cerca de 73% do valor contratado pelo banco para projetos de biogás e biometano tem origem no Fundo Clima, reforçando a conexão entre financiamento climático e infraestrutura de transição energética.

A Finep também mantém participação no desenvolvimento tecnológico relacionado ao setor.

Mas a expansão prevista exige uma combinação maior de fontes de capital.

Nesse cenário, as debêntures incentivadas aparecem como uma alternativa com potencial para ganhar relevância no médio e longo prazo, especialmente para projetos que não se enquadram em determinadas linhas tradicionais de financiamento ou que precisam de estruturas capazes de mobilizar volumes maiores de recursos.

Uma operação já realizada para uma planta de biogás demonstra esse movimento. A emissão pioneira de debêntures incentivadas, estruturada com assessoria jurídica especializada, permitiu a captação de R$ 38 milhões para o empreendimento.

Transporte pesado é uma das frentes de demanda

Do lado da demanda, o biometano encontra oportunidades particularmente relevantes em aplicações nas quais a substituição de combustíveis fósseis apresenta impacto econômico e ambiental significativo.

O transporte pesado é uma delas.

Dados apresentados pela ABiogás indicam potencial de redução de até 90% nas emissões quando o biometano é utilizado em substituição ao diesel em determinadas aplicações.

A possibilidade de utilização em frotas pesadas e na mobilidade urbana amplia o mercado potencial e aproxima a produção de biometano de setores que enfrentam pressão crescente por descarbonização.

Para a indústria, isso também abre uma discussão mais ampla: a disponibilidade regional de biometano pode influenciar decisões relacionadas à localização de operações, logística, matriz energética e estratégias de redução de emissões.

O próximo passo: ampliar a combinação de capital

A evolução do mercado deverá depender cada vez menos de uma única fonte de financiamento.

Além do crédito tradicional, ganham espaço discussões sobre blended finance, mecanismos de garantia, mercado de capitais e programas públicos destinados a estimular investimentos em transição energética.

O Eco Invest Brasil aparece nesse contexto como uma das iniciativas que podem contribuir para ampliar a participação de capital privado em projetos estratégicos.

A lógica é simples, mas não trivial: utilizar diferentes instrumentos financeiros para reduzir riscos, melhorar as condições de capital e tornar projetos de infraestrutura energética mais atraentes para investidores.

A leitura da P&S

O movimento do biogás e do biometano revela uma transformação que vai além da substituição de um combustível por outro.

O que está se formando é um ecossistema industrial e financeiro, no qual resíduos e subprodutos passam a ser tratados como recursos energéticos, enquanto atributos ambientais podem ganhar valor econômico próprio.

Para o Brasil, o potencial é expressivo. Mas a velocidade dessa expansão dependerá da capacidade de conectar quatro elementos: matéria-prima, infraestrutura, demanda e capital.

A regulamentação começa a criar as condições. A tecnologia já está disponível. O mercado começa a apresentar projetos em escala.

Agora, o desafio é financeiro: transformar o enorme potencial brasileiro em ativos capazes de atrair capital e gerar retorno de longo prazo.

E talvez seja justamente aí que o biogás e o biometano deixem de ser tratados como um nicho da transição energética para ocupar um espaço mais estratégico dentro da infraestrutura industrial brasileira.

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