BioMilho coloca em debate o desafio energético da nova onda do etanol de milho

BioMilho coloca em debate o desafio energético da nova onda do etanol de milho
BioMilho coloca em debate o desafio energético da nova onda do etanol de milho

06.03.2026

Em Ribeirão Preto, ComBio apresenta panorama de investimentos e alerta para impacto da disputa por biomassa na viabilidade de novos projetos

O avanço do etanol de milho no Brasil entrou definitivamente em uma nova fase. Com produção projetada para alcançar 10 bilhões de litros até o fim de 2025, segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), o setor vive um ciclo acelerado de expansão que vem redesenhando o mapa industrial do país e mobilizando investimentos bilionários.

Mas, junto com o crescimento, ganha centralidade uma variável que começa a preocupar investidores e operadores: a segurança energética das usinas.

Esse foi o foco da apresentação de Ricardo Blandy, diretor comercial da ComBio, durante a BioMilho, realizada na última quarta-feira (26/02), em Ribeirão Preto (SP). Diante de executivos de usinas, investidores e fornecedores do setor, Blandy apresentou um panorama estratégico da cadeia bioenergética do milho e chamou atenção para um risco estrutural que pode afetar diretamente a competitividade dos novos projetos.

Dos mais de 35 empreendimentos anunciados no país, cerca de 20 devem avançar nos próximos anos, somando aproximadamente R$ 21,6 bilhões em investimentos. Esse movimento deve gerar uma demanda adicional estimada em 6,8 milhões de toneladas de biomassa por ano.

A expansão, concentrada sobretudo no Centro-Oeste, pressiona um mercado que já apresenta sinais de desequilíbrio entre oferta e consumo de biomassa. Em alguns polos industriais, usinas de etanol de milho, fábricas de fertilizantes, processadoras de grãos e indústrias madeireiras disputam o mesmo insumo energético, elevando o risco de escassez e aumento de custos.

Nesse contexto, a discussão sobre vapor industrial ganha outra dimensão.

Dentro da estrutura de custos da produção de etanol de milho, o vapor representa o segundo maior item da operação, atrás apenas do próprio milho. Além de ser essencial para sustentar etapas críticas do processo industrial, trata-se também de um dos principais vetores de pressão financeira sobre as usinas.

Na prática, o desafio passa pela geração eficiente e previsível desse insumo térmico.

Segundo Blandy, a gestão da biomassa deixou de ser apenas uma variável operacional para se tornar um componente estratégico da viabilidade econômica dos projetos. Modelos especializados de operação térmica podem gerar ganhos de eficiência capazes de reduzir cerca de 10% no custo do vapor, o que representa um incremento estimado de 1% a 2% na margem final da operação de etanol de milho.

“Quando falamos em margens cada vez mais pressionadas, 1% ou 2% fazem diferença real na competitividade do projeto. O vapor é o segundo maior custo da operação. Portanto, qualquer ganho de eficiência térmica tem impacto direto no resultado”, afirma Blandy.

“A gestão da biomassa precisa ser pensada desde o início, com previsibilidade de suprimento e estrutura dedicada, porque a usina simplesmente não opera sem vapor. Sem planejamento de longo prazo, o risco deixa de ser apenas de custo e passa a ser de continuidade operacional”, complementa o executivo.

Outro ponto destacado durante a BioMilho foi o risco reputacional associado à origem da biomassa. Embora a supressão legal de vegetação nativa seja permitida dentro do Código Florestal Brasileiro, a prática vem se tornando cada vez mais sensível do ponto de vista ambiental, diante do crescente escrutínio público e internacional.

Para projetos estruturantes — que demandam previsibilidade de décadas — rastreabilidade e formação de cadeias sustentáveis passam a ser requisitos estratégicos, especialmente diante de investidores atentos aos critérios ESG.

Ao participar como palestrante na BioMilho, evento que reforça o protagonismo do interior paulista como polo de debate e articulação do agronegócio e da bioenergia, a ComBio se posiciona no centro das discussões sobre segurança térmica, estrutura de custos e gestão de risco no etanol de milho.

Em um momento em que novos projetos começam a sair do papel e a competição por biomassa se intensifica, a forma como as usinas estruturarão sua matriz energética poderá definir não apenas o ritmo de expansão do setor, mas também quais operações conseguirão preservar margem e competitividade em um mercado cada vez mais exigente.