Brasil gera mais de 100 milhões de toneladas de resíduos da construção civil por ano

Brasil gera mais de 100 milhões de toneladas de resíduos da construção civil por ano
Brasil gera mais de 100 milhões de toneladas de resíduos da construção civil por ano

30.10.2026

Concreto, tijolos, madeira e solo podem retornar à cadeia produtiva, mas o reaproveitamento depende da separação na origem, da triagem e da destinação adequada.

O Brasil gera mais de 100 milhões de toneladas de resíduos de construção e demolição por ano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Parte desse volume, que inclui restos de concreto, tijolos, madeira e terra, pode ser reaproveitada em novas aplicações. O desafio está em garantir que os materiais sejam separados, transportados e processados corretamente.

A Resolução nº 307 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) estabelece diretrizes para a gestão desses resíduos e atribui aos geradores a responsabilidade por sua destinação. A classificação considera as características de cada material e define quais podem ser reutilizados ou reciclados e quais exigem tratamento específico.

Uma operação no Litoral Norte de São Paulo mostra como esse processo funciona na prática. A usina de reciclagem do IDEAL Grupo, em atividade desde 2016, recebe cerca de 2.962 toneladas de resíduos por mês, segundo a empresa. A unidade surgiu em resposta à expansão de obras na região, que até então não contava com estrutura local para processar esse tipo de material.

Da obra à produção de novos materiais

O processo começa antes mesmo do descarregamento. As cargas chegam acompanhadas do Manifesto de Transporte de Resíduos (MTR), passam por pesagem e inspeção e podem ser recusadas quando contêm materiais incompatíveis com a licença ambiental da unidade.

Concreto, blocos, tijolos, argamassa e resíduos de pavimentação seguem para britagem e peneiramento, etapas que transformam os fragmentos em agregados reciclados, como brita e rachão. Esses materiais podem ser utilizados em aplicações como pátios, aterros e divisórias, desde que atendam às exigências técnicas de cada uso. Segundo o IDEAL Grupo, os agregados comercializados pela empresa custam aproximadamente 30% do valor do material mineral equivalente. Não são, porém, indicados para aplicações estruturais.

Madeira e resíduos de poda seguem outro fluxo. Após a secagem e a triagem, a madeira pode ser triturada e transformada em cavacos e pó de serra, utilizados por empresas em processos térmicos. Já a fração orgânica misturada à terra pode resultar em terra vegetal, destinada a jardins e gramados.

O solo proveniente de escavações também pode ser reaproveitado, por exemplo, em aterros e na preparação de terrenos, desde que apresente condições adequadas e não esteja contaminado.

A separação na origem faz diferença

Um dos principais obstáculos à reciclagem é a mistura de resíduos durante a própria obra. Sacolas plásticas, vidros, metais e outros materiais podem chegar junto ao entulho, exigindo triagem adicional. Quando contaminados ou misturados à terra e à chuva, alguns desses materiais perdem a possibilidade de reciclagem.

Segundo a empresa, parte dos rejeitos plásticos retirados das cargas precisa ser encaminhada a aterros sanitários. O exemplo evidencia que a recuperação de materiais não depende apenas da estrutura disponível nas usinas: começa na separação correta ainda no canteiro de obras.

O controle também é parte essencial da operação. Licenciamento ambiental, registro das cargas recebidas, rastreabilidade e inventários de entrada e saída permitem acompanhar o destino dos materiais e diferenciar uma unidade de reciclagem de uma área de descarte irregular.

A responsabilidade continua depois da obra

A reciclagem de resíduos da construção civil envolve infraestrutura, tecnologia e controle ambiental, mas também depende das decisões tomadas por construtoras, prestadores de serviço e responsáveis por reformas e demolições.

Separar os materiais, evitar a mistura com lixo doméstico e contratar transportadores e unidades devidamente autorizados são medidas que ampliam as possibilidades de reaproveitamento. Além de reduzir o volume destinado a aterros, a recuperação desses resíduos pode diminuir a demanda por matérias-primas naturais e reinserir materiais no ciclo produtivo.

O destino do entulho, portanto, não é uma etapa secundária da construção. Faz parte da gestão ambiental e da responsabilidade de toda a cadeia.

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