Cirurgia robótica entra em nova fase no Brasil: capacitação passa a ser fator crítico para a indústria
20.01.2026
A cirurgia robótica avança de forma consistente no Brasil, impulsionada pela ampliação do parque tecnológico hospitalar e pelo interesse crescente em procedimentos minimamente invasivos. No entanto, o setor começa a entrar em uma nova fase: a da maturidade operacional, em que a tecnologia, por si só, já não é suficiente para garantir segurança, eficiência e credibilidade.
Especialistas apontam que o crescimento da robótica médica traz um desafio central para a indústria: quem opera a tecnologia. O uso de sistemas robóticos em ambiente cirúrgico exige não apenas domínio do equipamento, mas uma base sólida em cirurgia convencional, capacidade de tomada de decisão em tempo real e preparo para atuar quando a tecnologia falha.
Para Sérgio Arap, diretor médico do centro cirúrgico do Hospital Sírio-Libanês, a comparação é direta com setores já maduros da engenharia e da aviação. “Assim como um piloto não inicia sua carreira em uma aeronave de grande porte, o cirurgião não pode começar diretamente na robótica. A tecnologia amplia capacidades, mas não substitui a formação técnica nem o julgamento humano”, afirma.
Da expansão tecnológica à governança
O avanço da robótica médica expõe um ponto sensível para fabricantes, hospitais e integradores: a pressão por escala. À medida que mais plataformas entram no mercado e os custos tendem a cair, cresce também a demanda por profissionais certificados, criando o risco de formações aceleradas e pouco estruturadas.
Nesse contexto, a capacitação passa a ser um diferencial estratégico da própria indústria. A robótica deixa de ser apenas uma solução de hardware e software e passa a depender de ecossistemas completos, que envolvem treinamento, certificação, protocolos de segurança e governança clínica.
Esse movimento acompanha uma tendência mais ampla da automação industrial: sistemas cada vez mais sofisticados exigem operadores altamente qualificados, capazes de intervir quando algoritmos, sensores ou interfaces não respondem como esperado.
Interiorização e novos mercados
Outro sinal dessa nova fase é a interiorização gradual da robótica. Estados e cidades que ainda não contam com plataformas robóticas começam a se preparar antecipadamente, investindo em capacitação antes mesmo da chegada dos equipamentos. A lógica se inverte: forma-se o operador antes de instalar a máquina.
Para a indústria, isso representa uma mudança relevante de abordagem comercial. Em vez de vender apenas tecnologia, cresce a necessidade de entregar modelos sustentáveis de implantação, que considerem formação profissional, curva de aprendizado e impacto regional no sistema de saúde.
Tecnologia como meio, não como promessa
A incorporação de inteligência artificial aos sistemas robóticos reforça esse cenário. Quanto mais complexa a tecnologia, maior a responsabilidade humana sobre sua aplicação. Na prática, a robótica médica começa a repetir um padrão já conhecido em outros segmentos industriais: a inovação só gera valor quando acompanhada de preparo técnico, processos claros e responsabilidade operacional.
Para o mercado brasileiro, a mensagem é clara. A próxima etapa da cirurgia robótica não será marcada apenas por novos equipamentos, mas por como a indústria estrutura o uso dessa tecnologia — com foco em segurança, qualificação e resultados concretos.