O que a P&S lê nas previsões de IA para 2026 no setor público
21.01.2026
Depois de um 2025 marcado por instabilidade política, avanços acelerados em inteligência artificial e um ambiente regulatório ainda em consolidação, o setor público entra em 2026 diante de um paradoxo: a adoção de IA cresce rapidamente, mas a maturidade institucional não acompanha o mesmo ritmo.
Relatórios recentes indicam que governos já utilizam inteligência artificial — inclusive IA generativa — em níveis comparáveis, ou até superiores, aos do setor privado. Ao mesmo tempo, permanecem atrás quando o tema é investimento em infraestrutura, governança e práticas de IA confiável. Esse descompasso ajuda a explicar por que 2026 tende a ser menos sobre “experimentar IA” e mais sobre corrigir excessos, estruturar processos e tornar os ganhos sustentáveis.
As análises que embasam esse debate partem de estudos e previsões de especialistas do SAS, com forte recorte no setor público, especialmente no contexto norte-americano, mas com implicações que extrapolam fronteiras e dialogam com governos e instituições de diferentes países.
Menos dependência de consultorias, mais capacidade interna
Uma das mudanças mais relevantes previstas para o setor público é a redução gradual da dependência de grandes projetos customizados conduzidos por consultorias externas. A pressão por eficiência orçamentária tem levado governos a buscar tecnologias capazes de acelerar análises, automatizar fluxos de trabalho e ampliar a produtividade da força de trabalho existente.
Nesse novo modelo, o diferencial deixa de ser o projeto pontual e passa a ser a combinação entre conhecimento setorial, plataformas analíticas escaláveis e capacitação contínua dos servidores públicos. A tecnologia deixa de ser exceção e passa a integrar o dia a dia das operações.
Transparência e governança deixam de ser opcionais
À medida que aplicações de IA avançam do estágio de pilotos para operações críticas — muitas delas baseadas em IA agêntica, capaz de tomar decisões com mínima intervenção humana —, cresce a exigência por transparência algorítmica, auditabilidade e explicabilidade.
Em um cenário de regulamentações fragmentadas e com a aproximação de marcos regulatórios mais rigorosos, como o AI Act europeu, a governança de IA deixa de ser apenas um requisito de conformidade e passa a funcionar como habilitador da inovação, definindo limites claros para o uso responsável da tecnologia.
Outro vetor importante é o movimento em direção à chamada IA soberana, com governos buscando manter controle sobre dados sensíveis, modelos e infraestrutura computacional dentro de seus próprios territórios.
IA agêntica, dados sintéticos e novos serviços ao cidadão
Do ponto de vista tecnológico, 2026 tende a marcar a consolidação de três frentes principais:
-
IA agêntica em escala, com frameworks capazes de orquestrar processos complexos em serviços públicos, desde atendimento ao cidadão até operações fiscais e administrativas.
-
Dados sintéticos como resposta à escassez de dados reais, às restrições regulatórias e aos desafios de soberania digital, especialmente para treinamento e testes de modelos de IA.
-
Automação inteligente de serviços, com assistentes virtuais multilíngues e análise em tempo real reduzindo filas, erros operacionais e tempos de resposta.
Essas aplicações prometem ganhos relevantes de eficiência, mas também ampliam a necessidade de controle, supervisão humana e integração entre órgãos.
O fator humano segue como ponto crítico
Apesar do avanço tecnológico, as previsões convergem em um ponto sensível: a transformação da força de trabalho pública será complexa e, em muitos casos, turbulenta. Funções tradicionais tendem a desaparecer, enquanto novas competências em dados, IA, governança e segurança ganham protagonismo.
Governos começam a explorar modelos que capturam conhecimento institucional acumulado, utilizando IA para apoiar servidores mais jovens. Ao mesmo tempo, surgem riscos inéditos, como a deterioração da qualidade dos dados e resistências internas, exigindo atenção redobrada à gestão da mudança.
Fraude, arrecadação e saúde pública sob nova pressão
Em áreas como fiscalização, arrecadação e saúde pública, a IA será simultaneamente aliada e desafio. O uso disseminado de IA generativa por redes de fraude eleva a sofisticação dos crimes, exigindo análises mais avançadas de identidade, transações e dados financeiros.
Na saúde pública, a promessa está na capacidade da IA de extrair valor de registros ainda em papel ou sistemas fragmentados, ampliando a vigilância epidemiológica e a capacidade de resposta a surtos.
A leitura da P&S para 2026
Para a P&S, o conjunto dessas previsões aponta para uma virada clara: o debate sobre IA no setor público deixa de ser tecnológico e passa a ser estrutural.
Em 2026, o sucesso da inteligência artificial nos governos não será medido pela sofisticação dos modelos, mas pela capacidade de equilibrar inovação, governança, confiança pública e resultados concretos. A tecnologia já está disponível. O desafio agora é institucional.
Baseado em relatórios e previsões de especialistas do SAS para o setor público, este conteúdo apresenta uma análise editorial da P&S. As visões aqui discutidas não representam necessariamente a linha editorial da revista.