Papel, celulose e embalagens: onde a indústria encontrou fôlego em meio aos juros altos

Papel, celulose e embalagens: onde a indústria encontrou fôlego em meio aos juros altos
O e-commerce mudou o endereço da demanda

26.08.2026

O cenário industrial brasileiro de 2026 está longe de ser homogêneo. Juros elevados, crédito restritivo, endividamento das famílias e um ambiente internacional marcado por tarifas e mudanças nas cadeias globais de suprimentos têm imposto cautela a empresas e consumidores.

Mas, dentro desse ambiente, alguns segmentos encontram espaços de crescimento.

A cadeia de papel, celulose e embalagens é um deles — embora com uma ressalva importante: não se trata de uma expansão uniforme. A celulose enfrenta pressões de oferta, preços e comércio internacional, enquanto o papel e, principalmente, as embalagens de papel e papelão ondulado vêm encontrando uma demanda doméstica mais resistente.

Os números ajudam a explicar esse movimento.

Segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a produção brasileira de papel alcançou 5,7 milhões de toneladas no primeiro semestre de 2026, crescimento de 2,4% sobre o mesmo período do ano anterior. A produção de celulose, por sua vez, ficou praticamente estável, em 13,9 milhões de toneladas.

No papelão ondulado, o sinal é ainda mais claro. Dados do Índice Brasileiro de Papelão Ondulado (IBPO), elaborado pela Empapel em parceria com a FGV/Ibre, apontaram expedição de 355,8 mil toneladas em junho, alta de 5,1% em relação ao mesmo mês de 2025 e recorde para junho desde o início da série histórica, em 2005. No acumulado do primeiro semestre, foram 2,104 milhões de toneladas, avanço de 3%.

A pergunta, portanto, é: o que está sustentando essa demanda em uma economia submetida a juros tão elevados?

Quando o crédito pesa, a embalagem continua circulando

A resposta começa por uma diferença estrutural entre os mercados.

Automóveis, eletrodomésticos e outros bens duráveis dependem fortemente de crédito e de decisões de compra que podem ser adiadas quando o custo do financiamento aumenta. O efeito dos juros aparece diretamente no bolso do consumidor e no ciclo financeiro das empresas.

O varejo de bens duráveis vem sentindo essa pressão em 2026. O alto custo do crédito e o endividamento das famílias têm comprometido resultados e reduzido o ritmo de consumo em segmentos como linha branca e móveis.

A embalagem opera em outra lógica.

Uma caixa de papelão, um rótulo, uma embalagem para alimentos ou uma solução para transporte não exige que o consumidor final financie sua compra por 24 ou 36 meses. Ela está vinculada ao fluxo de produção, distribuição e consumo.

Enquanto um consumidor pode adiar a compra de uma geladeira, dificilmente uma indústria, um supermercado ou uma operação de e-commerce pode simplesmente adiar indefinidamente a necessidade de embalar, transportar e entregar produtos.

Essa característica dá à cadeia de embalagens uma certa resiliência em momentos de desaceleração.

O e-commerce mudou o endereço da demanda

Há ainda uma transformação estrutural acontecendo por trás desses números: o crescimento do comércio eletrônico.

O consumidor pode estar comprando de uma plataforma internacional, de um marketplace ou diretamente do fabricante. Mas, antes de chegar à sua casa, boa parte desses produtos precisa passar por uma cadeia física de armazenagem, proteção, separação e transporte.

E isso significa embalagem.

Dados apresentados no Empapel Summit 2026 mostram a dimensão dessa oportunidade: o Brasil já registra 438,9 milhões de pedidos no comércio eletrônico, com expectativa de chegar a 560 milhões em 2030. O encontro também colocou e-commerce e delivery no centro da discussão sobre novas oportunidades para as embalagens de papel.

A expansão do comércio eletrônico, portanto, não elimina a indústria física. Ela reorganiza a demanda.

O produto pode ser digitalmente escolhido, comprado e pago. Mas precisa continuar sendo produzido, protegido e movimentado no mundo real.

É nesse ponto que o papelão ondulado ganha importância.

A embalagem deixa de ser apenas uma proteção para o produto e passa a integrar a operação logística: precisa ser resistente, ocupar menos espaço, facilitar a movimentação, permitir identificação e, cada vez mais, atender às exigências ambientais das marcas.

A caixa deixou de ser coadjuvante

O crescimento das embalagens também está mudando a própria função estratégica do setor.

Hoje, uma caixa pode carregar informação de marca, códigos de rastreabilidade, instruções, elementos de segurança e recursos que facilitam a operação logística. Ao mesmo tempo, precisa responder a uma demanda crescente por materiais recicláveis e por soluções que reduzam desperdícios.

Essa transformação ajuda a explicar por que o papelão ondulado vem apresentando um desempenho mais consistente do que alguns segmentos tradicionais associados à indústria gráfica.

A indústria não desapareceu com a digitalização.

Ela mudou de endereço.

Parte da demanda que antes estava concentrada em impressos promocionais, materiais institucionais e produtos editoriais migrou ou se expandiu para embalagens, rótulos, impressão industrial, personalização e comunicação no ponto de venda.

O papel deixou de competir apenas com o digital. Em muitos casos, passou a ser justamente a interface física de uma economia cada vez mais digital.

E a celulose?

Aqui, o cenário exige mais cautela.

A celulose brasileira continua altamente competitiva internacionalmente, mas enfrenta um ambiente externo mais complexo. No primeiro semestre, as exportações do setor de árvores cultivadas somaram US$ 7,5 bilhões, queda de 5,9% em relação ao mesmo período de 2025. As exportações de celulose caíram 10,5%, para 9,4 milhões de toneladas.

Ao mesmo tempo, surgem sinais de recuperação da demanda.

A Suzano informou em agosto que observava um ambiente mais favorável para a demanda de celulose no segundo semestre, com sinais de recuperação do consumo de papel na Ásia, especialmente na China, além do retorno de fatores sazonais e estoques mais equilibrados.

O quadro, portanto, é de resiliência com volatilidade, e não de uma alta generalizada.

A própria Klabin apresentou no segundo trimestre receita líquida de R$ 5,2 bilhões e EBITDA ajustado de R$ 2 bilhões, com margem de 38%, enquanto manteve volumes de vendas praticamente estáveis e direcionou volumes para mercados de maior rentabilidade.

A estratégia parece clara: em um mercado mais difícil, eficiência, mix de produtos e escolha dos mercados tornam-se tão importantes quanto crescimento de volume.

Sustentabilidade deixa de ser tendência e vira mercado

Outro vetor favorece a cadeia de papel e celulose: a busca por alternativas aos plásticos de uso único.

Copos, bandejas, sacolas, embalagens para alimentos e soluções para delivery estão no centro de uma corrida por materiais com menor impacto ambiental e maior reciclabilidade.

Mas aqui também é preciso fugir da simplificação de que “papel substitui plástico”.

A discussão industrial é mais sofisticada.

O desafio está em desenvolver estruturas que entreguem resistência, barreira, conservação, segurança alimentar e desempenho logístico sem comprometer sua destinação ao final da vida útil.

Isso exige investimento em fibras, revestimentos, barreiras, design estrutural, processos de conversão e reciclagem.

É justamente essa convergência entre material e tecnologia que abre novas oportunidades para a indústria.

O novo crescimento não está necessariamente onde estava antes

A leitura mais interessante dos dados de 2026 talvez seja esta: o setor não está crescendo porque a economia brasileira deixou de sentir os efeitos dos juros altos.

Ela continua sentindo.

O que mudou é a composição da demanda.

O mercado de embalagens está conectado a necessidades recorrentes e à movimentação de produtos. O e-commerce adiciona volume logístico. A busca por alternativas aos materiais descartáveis cria novos mercados. E a indústria gráfica amplia seu território ao incorporar impressão industrial, rótulos, embalagens e personalização.

Ao mesmo tempo, a cadeia de celulose precisa administrar um ambiente internacional mais competitivo, com excesso de oferta em alguns mercados, mudanças no comércio global e pressão sobre preços.

Por isso, talvez seja mais preciso falar em bolsões de resiliência do que em uma retomada homogênea.

A indústria que se reinventa

O setor de papel, celulose e embalagens oferece uma pequena aula sobre como uma indústria madura pode se reinventar.

A digitalização não eliminou o papel. O e-commerce não reduziu a necessidade de embalagem. A pressão ambiental não encerrou o mercado de materiais — ao contrário, abriu uma corrida tecnológica para desenvolver novas soluções.

O resultado é uma indústria que continua física, mas cada vez mais conectada a dados, automação, rastreabilidade, sustentabilidade e inteligência de mercado.

A caixa que chega à porta do consumidor é apenas a parte mais visível dessa transformação.

Por trás dela existe uma cadeia industrial que envolve florestas plantadas, celulose, papel, conversão, impressão, logística, varejo, tecnologia e reciclagem.

Em uma economia pressionada pelo custo do dinheiro, talvez o verdadeiro “oásis” não seja um setor que escapou da crise, mas aquele que encontrou novas formas de continuar crescendo dentro dela.

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