Papel e celulose entre a recuperação da demanda e a pressão do tarifaço
14.08.2026
Mercado asiático dá sinais de retomada, enquanto as novas tarifas dos EUA aumentam a pressão sobre exportadores brasileiros. No mercado interno, papelão ondulado mantém trajetória positiva.
O setor brasileiro de papel e celulose chega ao segundo semestre de 2026 diante de um cenário que mistura oportunidades e incertezas. De um lado, a retomada sazonal da demanda asiática, especialmente na China, cria uma perspectiva mais favorável para o mercado de celulose. De outro, a nova política tarifária dos Estados Unidos adiciona pressão sobre produtos brasileiros e pode alterar fluxos comerciais.
No mercado interno, o desempenho do papelão ondulado oferece um terceiro elemento à equação: a demanda por embalagens continua avançando, apoiada pela atividade econômica e pelo consumo.
Ásia volta ao radar
Os sinais mais recentes vindos da China são positivos. Segundo avaliação divulgada pela Suzano após os resultados do segundo trimestre, agosto trouxe sinais de retorno da demanda sazonal por celulose na Ásia.
A companhia observa crescimento no consumo chinês de diferentes tipos de papel e estoques considerados equilibrados tanto nos portos quanto entre produtores de papel. Para a Suzano, essa combinação pode sustentar uma demanda mais forte no segundo semestre.
O movimento é relevante porque a China continua sendo um dos principais centros de consumo da indústria global de celulose. Quando os estoques estão mais ajustados e os pedidos de papel avançam, o mercado ganha espaço para recompor volumes e, potencialmente, sustentar preços.
Mas existe uma diferença importante entre uma recuperação sazonal e uma mudança estrutural de ciclo. O segundo semestre precisará mostrar se o movimento observado em agosto se transforma em uma tendência consistente.
O problema está do outro lado do mapa
Enquanto a Ásia oferece uma perspectiva mais construtiva, os Estados Unidos introduzem uma variável de pressão.
A tarifa adicional de 25% aplicada pelos EUA a produtos brasileiros atingiu diretamente uma parcela relevante do setor de papel e celulose. Levantamento da CNI aponta que 24% das exportações brasileiras do segmento para o mercado americano são afetadas pela medida.
Entre os produtos atingidos estão pasta química de madeira, determinados papéis e cartões para escrita, materiais utilizados na fabricação de embalagens para bebidas e papel com revestimento térmico.
O impacto não está apenas no custo adicional para quem exporta. A questão mais estratégica é o que acontece depois.
Uma tarifa pode reduzir a competitividade do produto brasileiro no mercado americano, pressionar margens, alterar destinos de exportação e provocar uma reorganização dos fluxos internacionais.
Para um setor altamente integrado ao comércio exterior, essa não é uma variável pequena.
A celulose e o papel não estão no mesmo barco
Outro ponto importante é evitar tratar “papel e celulose” como um mercado único.
A própria lista de produtos atingidos pelo tarifaço mostra que a exposição varia conforme o produto. Além disso, algumas categorias de celulose ficaram fora da nova tarifa, enquanto produtos como celulose solúvel, papéis e painéis de madeira permanecem mais expostos.
Essa diferenciação pode se tornar cada vez mais importante na estratégia comercial das empresas.
Enquanto alguns produtos podem manter maior competitividade internacional, outros precisarão encontrar novos mercados ou rever sua estrutura de preços e distribuição.
Embalagens seguem em uma trajetória diferente
No Brasil, o mercado de papelão ondulado apresenta uma dinâmica mais positiva.
Dados compilados pelo Banco do Brasil apontam crescimento de 5,3% na expedição de caixas, acessórios e chapas de papelão ondulado no acumulado de 2026, na comparação anual. O avanço ocorre em um mercado diretamente ligado à atividade industrial, ao consumo e à movimentação de mercadorias.
É aqui que o comércio eletrônico entra como um dos vetores importantes.
Mais produtos vendidos e distribuídos significam mais necessidade de acondicionamento, transporte e proteção. E o papelão ondulado continua ocupando uma posição estratégica nessa cadeia.
Além do volume, existe outra transformação acontecendo: a embalagem de papel passou a disputar espaço não apenas por funcionalidade, mas também por atributos ambientais.
A substituição de materiais de origem fóssil, a reciclabilidade e o uso de fibras provenientes de fontes renováveis ampliam o papel estratégico das soluções de papel e cartão dentro das cadeias de consumo.
Três forças para acompanhar no segundo semestre
O setor entra, portanto, em uma segunda metade de 2026 marcada por três movimentos diferentes:
1. Demanda internacional
A retomada sazonal observada na Ásia pode favorecer o mercado de celulose e melhorar o ambiente de preços.
2. Geopolítica e comércio exterior
O tarifaço americano aumenta a pressão sobre produtos brasileiros e pode provocar redirecionamento de exportações. A própria Apex Brasil já anunciou recursos para apoiar a diversificação de mercados diante das novas tarifas.
3. Mercado doméstico de embalagens
O crescimento da expedição de papelão ondulado mostra que a demanda interna continua sendo um importante amortecedor para o setor.
O segundo semestre será menos sobre volume e mais sobre estratégia
O cenário que se desenha não é exatamente de alta ou baixa. É de rearranjo.
A indústria brasileira de papel e celulose tem vantagens competitivas importantes, mas o ambiente internacional está mais fragmentado. A demanda pode crescer em uma região enquanto barreiras comerciais reduzem a competitividade em outra.
Isso aumenta a importância da diversificação geográfica, da eficiência operacional e da capacidade de direcionar produtos para os mercados onde apresentam maior valor.
No mercado doméstico, a expansão das embalagens acrescenta uma camada de estabilidade. O crescimento do comércio, da indústria e da circulação de produtos sustenta uma demanda que não depende exclusivamente do mercado internacional de celulose.
Para o segundo semestre, portanto, a pergunta talvez não seja apenas quanto o setor vai vender.
É para quem, onde e a que preço.
E, em um mercado cada vez mais condicionado por geopolítica, sazonalidade e mudanças no consumo, essa pode ser a variável que fará a diferença entre crescer e simplesmente deslocar volumes de um mercado para outro.
Fonte: P&S, com informações de Suzano, CNI, ApexBrasil e Banco do Brasil.