Mercado de packaging 2026: Onde a circularidade e a identidade digital convergem

Mercado de packaging 2026: Onde a circularidade e a identidade digital convergem

17.04.2026

Por: Flavio Marqués, diretor de unidade de negócios para a América Latina da Avery Dennison


Estamos acompanhando de perto uma transformação impulsionada por marcos legislativos fundamentais, como as novas legislações no Brasil, os regulamentos de Economia Circular no México e a consolidação da Lei REP no Chile e na Colômbia, que estão obrigando a região a redefinir seu padrão operacional. Não estamos mais em uma era onde a embalagem tem somente as funções de proteger e valorizar o produto, mas estamos liderando o avanço rumo a um modelo onde a embalagem comunica, interage e administra ativamente o seu próprio ciclo de vida.

Neste cenário, onde o consumidor está mais consciente da sustentabilidade, e também habita um mundo plenamente digital, acredito que o ecossistema de rótulos e embalagens deve atuar integrando cada vez mais materiais que auxiliem as indústrias nessa conjuntura. Somente assim permitiremos que a economia circular transcenda o aspecto técnico para se materializar. Com base nessa inovação, estes são os pilares estratégicos que, na minha perspectiva, definem nossa indústria em 2026:

1. Legislação: Do cumprimento normativo à eficiência sistêmica

O que começou como uma resposta voluntária evoluiu para um efeito dominó legislativo que hoje redesenha nosso mapa industrial. Neste cenário, o México dita o ritmo com uma normativa federal que transformou o design circular em uma vantagem competitiva: as embalagens são concebidas desde a origem para potencializar metas sustentáveis, como adesivos que permitem separar rótulos sem contaminar o frasco de PET, integrando a inovação diretamente na cadeia de valor.

A LIR (Lei de Incentivo a Reciclagem) deixou de ser uma promessa para se tornar o motor que traciona a cadeia de suprimentos rumo à recuperação obrigatória. O mercado brasileiro desafia os limites escalando modelos de reúso com uma rastreabilidade antes impensável. Esta maré regulatória impulsiona uma harmonização de padrões onde a sustentabilidade já não é apenas uma meta, mas um aspecto indispensável para a economia.

Dados de mercado reforçam essas percepções:
- Em 2023, 70 empresas participaram do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE B3), que superou o Ibovespa em 11 dos últimos 18 anos, mostrando que as companhias com boas práticas ESG (meio-ambiente, social e governança) têm apresentado um desempenho sólido no mercado.

- De acordo com a XP Investimentos, as empresas estão estruturando melhor as suas avaliações de sustentabilidade, principalmente dos seus fornecedores, tornando o acompanhamento mais rigoroso e eficiente ao longo da cadeia.

- Em 2023, no Brasil, 1,4 milhão de toneladas de plástico foram recicladas e destinadas à economia circular. Por meio do Sistema de Logística Reversa de Embalagens de Plástico, alinhado à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), o Brasil se compromete a coletar e reciclar 50% de todas as embalagens até 2040, estimulando o retorno das embalagens plásticas ao ciclo produtivo.

- No mundo, cerca de 15% das empresas globais de bens de consumo possuem metas ambiciosas para redução de carbono, impactando diretamente nas suas embalagens, através da utilização de soluções biodegradáveis, compostáveis ou recicláveis.

- Estudos já mostram que empresas estão otimizando os seus processos, inovando nos seus maquinários e diversificando as suas equipes para conseguir resultados melhores e mais efetivos.

2. A embalagem conectada e como ajuda no desperdício de alimentos

Para 2026, combater o desperdício de alimentos deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a ser uma prioridade financeira para líderes de empresas no mundo todo. O novo relatório “Tornando o Invisível Visível”, da Avery Dennison, desenvolvido em parceria com a Centre for Economics and Business Research (CEBR), mostra como o mercado enfrenta perdas de cerca de US$ 540 bilhões por ano, um valor alarmante, especialmente considerando que esse desperdício representa, em média, 33% das receitas comerciais.

Diante desse cenário, estamos ajudando os varejistas a evoluírem para embalagens e processos conectados, substituindo controles manuais por datas de validade digitais. Essa mudança traz muito mais precisão na gestão de produtos perecíveis e transforma a embalagem em uma ferramenta inteligente, capaz de recuperar valor que hoje ainda se perde nas gôndolas.


3. O Novo Consumidor: A Embalagem como Portal de Transparência

Observa-se uma forte tendência do consumidor a valorizar não apenas o produto em si, mas também a história, a origem e as informações que o acompanham. Com um simples escaneamento do rótulo, ele pode acessar uma série de dados, como a pegada de carbono do produto e orientações de reciclagem adaptadas à sua região. Mais do que um avanço tecnológico, isso representa uma nova forma de construir confiança entre marcas e consumidores. A embalagem deixa de ser apenas um invólucro e passa a ser um canal direto de comunicação, oferecendo informações claras, confiáveis e baseadas em fatos. Nesse novo cenário, transparência e experiência digital se tornam alguns dos ativos mais valiosos para as marcas.

 

4. O Auge do E-commerce: Logística Inteligente e Circular

Para 2026, a América Latina se consolidou como um dos principais motores do crescimento do e-commerce global, avançando em ritmo superior à média mundial. O México, por exemplo, atingiu um marco histórico ao superar a penetração do comércio eletrônico varejista dos Estados Unidos. No Brasil, o crescimento também segue forte e consistente: em 2025, o país registrou alta de 7% no tráfego de e-commerce, enquanto a média global apresentou queda de 1% no mesmo período. Para 2026, a expectativa é de que a América Latina cresça cerca de 12,4%.

Com esse aumento expressivo no volume de envios, as etiquetas passaram a ter um papel ainda mais estratégico na operação logística. A adoção da tecnologia RFID permite hoje maior visibilidade do inventário, melhora a logística reversa e ajuda a resolver um ponto de dor importante para muitos consumidores da região.

Ao mesmo tempo, esse crescimento exige soluções de embalagem mais sustentáveis. O mercado já não busca apenas velocidade, mas também circularidade. Por isso, cresce a tendência de etiquetas desenvolvidas para serem recicladas junto com as caixas de papelão, sem necessidade de separação, reduzindo desperdícios em toda a cadeia logística.