ABB: infraestrutura elétrica ganha papel estratégico na descarbonização da indústria pesada

21.09.2026

 

A descarbonização da indústria pesada não depende apenas da substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis. À medida que siderúrgicas, produtoras de alumínio e outras operações intensivas em energia avançam na eletrificação de seus processos, a própria infraestrutura elétrica passa a ocupar uma posição estratégica.

Esse movimento traz um desafio adicional: lidar com cargas elevadas e variáveis sem comprometer a estabilidade dos processos produtivos. Em operações nas quais uma interrupção pode provocar perdas significativas ou danos a equipamentos, confiabilidade e capacidade de resposta deixam de ser apenas requisitos de engenharia e passam a fazer parte da estratégia de transição energética.

Na siderurgia, por exemplo, a substituição de processos baseados em carvão por fornos elétricos a arco (EAF) amplia a demanda por eletricidade. Na produção de hidrogênio verde, grandes volumes de energia renovável precisam ser convertidos e disponibilizados aos eletrolisadores. Na produção de alumínio, a continuidade do fornecimento elétrico é igualmente crítica.

É nesse ponto que entram os retificadores de alta potência, responsáveis por converter a corrente alternada (AC) da rede em corrente contínua (DC) para aplicações industriais específicas. Mais do que um componente da infraestrutura elétrica, esses sistemas precisam acompanhar as variações de carga e contribuir para a estabilidade de processos que operam continuamente.

Segundo a ABB, o avanço das fontes renováveis torna essa capacidade ainda mais relevante. Solar e eólica introduzem características diferentes das fontes convencionais de geração, exigindo que os sistemas elétricos industriais estejam preparados para responder a variações e oscilações.

Quando a energia renovável encontra processos contínuos

O desafio fica evidente em operações como a produção de alumínio. A interrupção prolongada do fornecimento de energia pode levar à solidificação do metal nas cubas, comprometendo o processo e gerando perdas expressivas.

Para Luis Pinchete, Local Business Line Manager Pulp, Paper & Fiber Metals & Power Conversion da ABB, a transição energética exige que a infraestrutura acompanhe a mudança da matriz.

“O fornecimento de energia elétrica sustentável permite que nossos clientes avancem em suas metas de sustentabilidade, mas isso exige expertise e sistemas capazes de suportar as variações de carga sem interromper processos críticos.”

Entre as tecnologias utilizadas nesse contexto estão os tiristores, semicondutores de potência capazes de responder rapidamente às variações do sistema elétrico. O objetivo é manter o fornecimento adequado mesmo em condições mais dinâmicas de operação.

Mas a transformação não termina na eletrônica de potência.

Digitalização para além do monitoramento

À medida que ativos industriais envelhecem e os sistemas se tornam mais complexos, a disponibilidade de dados passa a ser outro componente importante da confiabilidade.

A digitalização permite acompanhar condições operacionais, identificar alterações de comportamento e antecipar possíveis falhas. Na infraestrutura de retificação, sensores e sistemas de análise podem ampliar a visibilidade sobre componentes críticos e circuitos de resfriamento, por exemplo.

A ABB vem incorporando recursos de inteligência artificial e análise de dados à plataforma ABB Ability™ ConSys Connect, com ferramentas voltadas ao monitoramento e à manutenção preditiva.

Uma das aplicações citadas pela empresa é o uso de um copiloto de IA para apoiar equipes de manutenção na análise de dados e na geração de visualizações específicas. A proposta é reduzir o tempo necessário para transformar grandes volumes de dados operacionais em informação útil para a tomada de decisão.

Essa abordagem também ganha relevância em plantas que trabalham com equipamentos antigos. Em vez de substituir automaticamente ativos que chegaram ao fim do ciclo inicialmente previsto, a análise das condições reais de operação pode ajudar a identificar oportunidades de modernização e extensão da vida útil.

Modernizar sem necessariamente começar do zero

A transição energética também coloca uma questão prática para a indústria: o que fazer com os ativos existentes?

Em muitos casos, a modernização de uma planta não significa substituir toda a infraestrutura. Projetos de brownfield podem combinar equipamentos existentes com novas tecnologias, reduzindo investimentos e riscos associados a grandes intervenções.

Um dos exemplos apresentados pela ABB ocorreu na África do Sul, onde a empresa modernizou a eletrônica de potência de retificadores antigos, mantendo os transformadores existentes.

A estratégia mostra uma outra dimensão da sustentabilidade industrial: além de consumir menos energia ou utilizar fontes renováveis, prolongar a vida útil de equipamentos e evitar substituições desnecessárias também pode fazer parte da equação.

Casos em diferentes geografias

A combinação entre eletrificação e digitalização já aparece em projetos industriais de grande escala.

Na Arábia Saudita, a ABB forneceu sistemas de retificação para um projeto de produção de hidrogênio verde que utiliza energia solar e eólica. Segundo a empresa, os sistemas convertem mais de 2 GW de energia renovável em corrente contínua para alimentar os eletrolisadores.

Na Islândia, onde a matriz elétrica é majoritariamente renovável, a empresa implementou uma solução de retificação com circuito crowbar para lidar com variações da rede e manter a estabilidade da produção de alumínio.

Na siderurgia norte-americana, a ABB também aponta a participação em projetos envolvendo fornos elétricos a arco de corrente contínua. Segundo a companhia, cerca de dez novos EAF DC foram energizados nos Estados Unidos na última década.

Os exemplos mostram que a eletrificação da indústria pesada não se resume à troca de uma tecnologia por outra. Ela envolve rede elétrica, conversão de energia, automação, dados, manutenção e, principalmente, continuidade operacional.

A próxima etapa tende a aproximar ainda mais esses elementos. Com a expansão das fontes renováveis e da produção de hidrogênio, a infraestrutura elétrica terá de responder a uma indústria cada vez mais eletrificada e, ao mesmo tempo, mais dependente de sistemas capazes de administrar variações em tempo real.

Nesse cenário, a descarbonização deixa de ser apenas uma questão de fonte de energia. Passa também a ser uma questão de infraestrutura.

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