Indústria brasileira acelera uso de dados para evitar falhas e reduzir custos operacionais
22.04.2026
A digitalização já faz parte da rotina da indústria brasileira, mas ainda há um longo caminho para que os dados gerados nas operações se transformem em inteligência estratégica. Segundo a Pesquisa de Inovação (PINTEC), 84,9% das indústrias no país utilizam ao menos uma tecnologia digital avançada, como automação, internet das coisas (IoT) ou inteligência artificial, um avanço importante, mas que ainda convive com processos fragmentados e baixa integração de informações nas operações.
Apesar desse avanço, muitas empresas ainda operam com sistemas fragmentados ou dependentes de controles manuais, o que dificulta a visibilidade sobre falhas e riscos operacionais.
Segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), 69% das indústrias brasileiras utilizam ao menos uma tecnologia digital, mas apenas 7% alcançaram um nível avançado de maturidade tecnológica, indicando que grande parte das empresas ainda estão na fase inicial da transformação digital.
No cenário global, a tendência é semelhante. Estimativas da Gartner indicam que mais de 75% das organizações industriais pretendem ampliar investimentos em digitalização operacional até 2027, impulsionadas pela necessidade de aumentar produtividade, reduzir custos e melhorar a previsibilidade das operações.
A transformação também tem sido destacada em análises internacionais sobre competitividade industrial. Um artigo publicado na Forbes Technology Council aponta que a integração de dados ao longo de toda a cadeia produtiva, conceito conhecido como “digital thread”, deve se tornar um dos pilares da indústria moderna, permitindo que empresas conectem informações de produção, manutenção e logística para tomar decisões mais rápidas e estratégicas.
Nesse cenário, tecnologias de monitoramento em tempo real e análise de dados ganham espaço ao permitir que empresas antecipem problemas antes que eles interrompam a produção.
Segundo Igor Silveira, cofundador da Melvin, empresa brasileira de tecnologia especializada em gestão de manutenção industrial, esse movimento representa uma mudança estrutural na forma como as indústrias operam.
“Durante décadas, a manutenção foi baseada em reação. O equipamento quebrava e a equipe corria para resolver. Hoje a lógica está mudando, com sensores e dados em tempo real, as empresas conseguem prever falhas e agir antes que o problema aconteça”, destaca.
A Melvin desenvolve soluções que conectam sensores industriais a plataformas digitais, monitorando variáveis como vibração, temperatura e desempenho de máquinas para identificar padrões de falha e gerar alertas automáticos.
Esse modelo de gestão baseado em dados tem impacto direto nos resultados. Estudos da consultoria McKinsey & Company indicam que o uso de inteligência artificial e analytics em operações industriais pode reduzir custos de manutenção em até 12% e aumentar a disponibilidade de ativos em cerca de 9%.
Para Eymard Barroso, também cofundador da Melvin, o desafio das empresas não é mais apenas adotar tecnologia, mas integrá-la à operação. “Muitas indústrias já possuem sensores e sistemas, mas os dados ainda estão isolados. Quando conseguimos conectar essas informações, criamos uma visão completa da operação e isso muda totalmente a tomada de decisão”, aponta.
Ainda segundo o executivo, a digitalização industrial representa uma mudança na própria lógica de gestão das operações. “A indústria sempre gerou uma quantidade enorme de dados, mas durante muito tempo essas informações não eram utilizadas de forma estratégica. Quando esses dados passam a ser integrados e analisados, eles deixam de ser apenas registros operacionais e se tornam inteligência para tomada de decisão”, complementa.
A integração de dados industriais deve se tornar um dos principais diferenciais competitivos da próxima década, especialmente em setores intensivos em equipamentos, como energia, agronegócio, mineração e manufatura.
“A manutenção deixa de ser vista apenas como um centro de custo e passa a ser tratada como uma área estratégica para garantir produtividade, eficiência e continuidade da operação”, finaliza Igor.
Nesse cenário, empresas que conseguirem transformar dados operacionais em inteligência de negócio tendem a ganhar vantagem competitiva em um ambiente industrial cada vez mais orientado por tecnologia, eficiência e previsibilidade.