Terras raras: quatro elementos concentram interesse estratégico da indústria
29.10.2026
Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são fundamentais para ímãs de alto desempenho utilizados em veículos elétricos, turbinas eólicas e motores industriais. Brasil detém a segunda maior reserva estimada desses minerais, segundo o USGS.
As terras raras ganharam importância estratégica na indústria global por seu papel no desenvolvimento de tecnologias ligadas à eletrificação, à transição energética, à automação e à defesa. Embora o grupo reúna 17 elementos químicos, quatro deles — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — se destacam pela utilização na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, essenciais para diversas aplicações industriais.
Segundo o Mineral Commodity Summaries 2026, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui reservas estimadas em 21 milhões de toneladas de terras raras, atrás apenas da China, com 44 milhões de toneladas. Essa posição coloca o país em evidência no debate sobre a diversificação das cadeias globais de suprimento e o desenvolvimento de atividades de maior valor agregado.
O potencial geológico, porém, não se traduz automaticamente em liderança industrial. A capacidade de extrair, beneficiar, separar e refinar os elementos, além de produzir ligas e componentes, é determinante para transformar reservas minerais em insumos estratégicos para a indústria.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), os ímãs permanentes representam aproximadamente 95% do consumo de terras raras em valor. A concentração desse mercado ajuda a explicar por que determinados elementos recebem atenção crescente de governos, empresas e setores industriais.
Um grupo de 17 elementos com propriedades específicas
As terras raras compreendem os 15 elementos da série dos lantanídeos, com números atômicos de 57 a 71, além do escândio e do ítrio. Apesar do nome, não são necessariamente escassas na crosta terrestre. O desafio está na ocorrência de concentrações economicamente exploráveis e, principalmente, na separação dos elementos, cujas propriedades químicas são muito semelhantes.
O grupo inclui lantânio (La), cério (Ce), praseodímio (Pr), neodímio (Nd), promécio (Pm), samário (Sm), európio (Eu), gadolínio (Gd), térbio (Tb), disprósio (Dy), hólmio (Ho), érbio (Er), túlio (Tm), itérbio (Yb), lutécio (Lu), escândio (Sc) e ítrio (Y).
As propriedades magnéticas, ópticas e eletrônicas desses elementos permitem aplicações em diferentes segmentos, como eletrônicos, equipamentos médicos, sistemas de iluminação, catalisadores e tecnologias de energia.
Na cadeia produtiva, a separação é uma etapa particularmente exigente. Depois da extração e do beneficiamento do minério, é necessário obter os elementos individualmente, convertê-los em produtos refinados e, em determinadas aplicações, transformá-los em metais, ligas e componentes.
Essa complexidade tecnológica ajuda a explicar a concentração geográfica do processamento e da fabricação de ímãs, além da importância dos investimentos em capacidade industrial.
Quatro elementos no centro dos ímãs de alto desempenho
Neodímio e praseodímio são matérias-primas fundamentais para os ímãs de neodímio-ferro-boro (NdFeB), conhecidos por sua elevada força magnética em relação ao tamanho e à massa. Essa característica permite desenvolver motores e geradores compactos e eficientes.
O disprósio e o térbio também podem ser adicionados a esses materiais para melhorar a resistência à desmagnetização em temperaturas elevadas, característica importante em aplicações que operam sob condições térmicas exigentes.
Esses quatro elementos são conhecidos como terras raras magnéticas e sustentam tecnologias presentes em veículos elétricos, turbinas eólicas, motores industriais, robótica e equipamentos médicos, entre outras aplicações.
A escolha do material magnético depende, contudo, dos requisitos de cada projeto. Ímãs de ferrite, por exemplo, continuam sendo utilizados em diversas aplicações, enquanto os ímãs de terras raras são especialmente importantes quando se exige elevada força magnética em dimensões reduzidas ou desempenho específico em determinadas condições operacionais.
A demanda por esses elementos vem crescendo. A IEA informa que o consumo das terras raras utilizadas em ímãs dobrou desde 2015 e projeta expansão adicional superior a 30% até 2030, considerando as políticas atuais e o avanço da eletrificação e das tecnologias energéticas.
Reservas minerais não bastam para garantir competitividade
A posição brasileira em reservas representa uma oportunidade, mas o aproveitamento econômico depende de toda a cadeia de valor. Além de desenvolver projetos de mineração, é necessário ampliar a capacidade de processamento, separação e refino, bem como a produção de ligas e ímãs permanentes.
A concentração do mercado internacional torna esse desafio ainda mais relevante. Segundo a IEA, a China respondeu por cerca de 60% da produção mundial extraída de terras raras magnéticas em 2024 e por aproximadamente 91% da produção refinada desses elementos. No segmento de ímãs permanentes sinterizados, sua participação chegou a cerca de 94% naquele ano.
Para a indústria brasileira, avançar nessa cadeia pode abrir oportunidades em bens de capital, processos químicos, engenharia, automação e desenvolvimento de materiais. Também pode contribuir para reduzir vulnerabilidades de suprimento em segmentos que dependem de componentes magnéticos de alto desempenho.
O desafio, portanto, vai além de possuir recursos minerais. Envolve transformar potencial geológico em capacidade tecnológica e industrial, com investimentos, conhecimento especializado e integração entre os diferentes elos da cadeia produtiva.