Efluentes industriais podem se transformar em fonte de recuperação de metais

Efluentes industriais podem se transformar em fonte de recuperação de metais
Efluentes industriais podem se transformar em fonte de recuperação de metais-Revista PS

06.10.2026

Estudos apontam potencial para recuperar ouro, prata, zinco, cobre, níquel e cobalto de correntes líquidas e aproximam tratamento de efluentes da economia circular

O tratamento de efluentes industriais começa a ganhar uma nova perspectiva: além de reduzir a carga poluente antes do descarte, determinadas correntes podem conter metais com valor econômico que ainda podem ser recuperados.

Uma revisão científica publicada em 2026 pela RSC Advances, da Royal Society of Chemistry, reuniu estudos sobre a recuperação de metais em águas residuais de setores como eletrônicos, galvanoplastia e mineração. Em alguns casos, as concentrações encontradas nos efluentes chegaram a superar as observadas em determinados minérios naturais.

O levantamento cita, por exemplo, correntes com cerca de 200 g de ouro por tonelada, enquanto minérios convencionais podem apresentar entre 5 e 30 g/t. Os valores, entretanto, dependem das características de cada processo e não podem ser generalizados para todos os efluentes.

Do resíduo ao recurso

O potencial não se limita aos metais preciosos. Em um estudo da UFMG com efluente da Votorantim Metais, em Três Marias (MG), pesquisadores recuperaram 98,6% do zinco presente na corrente analisada. O processo resultou em uma solução com 125,7 g de zinco por litro, com possibilidade de encaminhamento à etapa de eletrólise.

Outro trabalho da universidade avaliou o reaproveitamento de águas residuárias da mineração associadas a cobre, cobalto e níquel, reforçando a possibilidade de integrar recuperação de recursos ao tratamento de efluentes.

A viabilidade, porém, depende de fatores como concentração, volume do efluente, valor do metal, composição da corrente e custo das etapas de separação e purificação.

Caracterização é o primeiro passo

Antes de escolher uma tecnologia de recuperação, é necessário saber exatamente o que existe na corrente líquida e em que quantidade.

Técnicas analíticas permitem identificar e quantificar elementos mesmo em baixas concentrações. A partir dos resultados, a indústria pode cruzar concentração, volume descartado e valor econômico para avaliar se existe potencial real de recuperação.

Entre as tecnologias disponíveis estão adsorção, troca iônica, extração líquido-líquido, processos com membranas e métodos eletroquímicos. A escolha depende das características específicas de cada efluente.

Em outro estudo citado no levantamento, envolvendo efluentes da mineração de ouro, a combinação de destilação por membrana e resinas de troca iônica alcançou retenção superior a 99,2% dos metais e superior a 99,9% da acidez, com produção de água em condições para reuso na operação.

Eficiência começa antes do tratamento

A recuperação também pode revelar perdas ocorridas durante o próprio processo produtivo.

Quando uma matéria-prima de valor aparece continuamente no efluente, a análise deixa de ser apenas uma ferramenta de controle ambiental e passa a funcionar como indicador de eficiência industrial.

Nesse caso, a empresa pode atuar em duas frentes: recuperar o material presente na corrente e, ao mesmo tempo, investigar por que ele está sendo perdido na origem.

Economia circular aplicada ao efluente

Essa abordagem aproxima o tratamento de águas residuais dos princípios da economia circular, ao buscar o retorno de materiais ao ciclo produtivo em vez de considerar o efluente apenas como um passivo a ser tratado.

Isso não significa que todo efluente contenha metais em concentração economicamente recuperável. A questão é outra: medir antes de descartar.

Para a indústria, conhecer a composição das correntes líquidas pode revelar tanto uma oportunidade de recuperação de recursos quanto uma perda de matéria-prima que até então passava despercebida.

O efluente, em alguns processos, pode ser mais do que um resíduo: pode ser um indicador de eficiência — e até uma fonte secundária de matérias-primas.

#RevistaPS #EfluentesIndustriais #RecuperaçãoDeMetais #EconomiaCircular #Mineração #Tecnologia #ProcessosIndustriais #Sustentabilidade #Inovação #EficiênciaIndustrial